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Sonhar com alguém que morreu: perspetivas da psicologia, da espiritualidade, do Islão e da Bíblia
Acorda e, durante alguns segundos, parece que essa pessoa ainda está ali. A sua mãe à mesa da cozinha, o seu avô na cadeira de sempre, um amigo a rir como se nada tivesse acontecido. Depois chega a manhã e essa presença desvanece-se novamente. Sonhar com pessoas que morreram é uma das experiências oníricas mais comuns e também uma das mais pesquisadas, porque deixa uma pergunta difícil de ignorar: foi uma mensagem, uma visita ou apenas a forma como a minha mente está a lidar com a perda? Este guia aborda essa questão com respeito e a partir de várias perspetivas: o que a investigação sobre o luto descobriu, o que defendem as tradições espirituais, como o Islão e o Cristianismo interpretam estes sonhos, os cenários mais frequentes e os seus significados habituais, e como lidar com as emoções que o sonho deixa.
Porque sonhamos com pessoas que morreram
Durante grande parte do século XX, o luto era descrito como um processo de desapego: fazia-se o luto, deixava-se a pessoa partir e seguia-se em frente. Em 1996, um grupo de investigadores liderado por Dennis Klass veio alterar essa visão com o conceito de vínculos contínuos. Mostraram que quem perde alguém não rompe verdadeiramente a relação com essa pessoa. Em vez disso, essa ligação continua de uma forma diferente, através das memórias, dos rituais, das conversas e, muito frequentemente, dos sonhos. Sonhar com alguém que morreu não significa que a pessoa não conseguiu seguir em frente. É uma das formas de esse vínculo continuar.
A investigação realizada desde então é tranquilizadora. Num estudo com 216 pessoas cujo companheiro ou companheira tinha falecido, o psicólogo Joshua Black e os seus colegas concluíram que sonhar com pessoas falecidas é comum, que a maioria desses sonhos é vivida como reconfortante e não angustiante, e que diferentes sonhos parecem desempenhar funções diferentes: alguns ajudam a processar o choque da perda, outros mantêm viva a ligação, e outros ainda regulam a intensidade das emoções associadas ao luto. Estes sonhos são mais frequentes durante o primeiro ano e tendem a reaparecer em aniversários, datas especiais e momentos importantes da vida que essa pessoa teria partilhado. Por outras palavras, a mente que sonha vive o luto ao mesmo ritmo que a mente desperta.
O luto é o preço que pagamos pelo amor.
Queen Elizabeth II, message to the memorial service for the victims of 11 September, New York (2001)
O que a psicologia diz sobre o significado destes sonhos
A psicologia não interpreta estes sonhos como mensagens vindas do exterior. Entende-os como mensagens que surgem do interior: a mente a adaptar-se a uma relação que mudou de forma, mas não terminou. A investigadora dos sonhos Patricia Garfield, que passou anos a recolher relatos deste tipo após a morte do próprio pai, observou que seguem padrões reconhecíveis. Nos primeiros tempos, é comum que os sonhos revivam a morte ou a neguem - a pessoa aparece viva e quem sonha sente confusão ou alívio. Mais tarde, os sonhos costumam mudar: a pessoa surge saudável, mais jovem, em paz, oferecendo uma palavra, um abraço ou simplesmente a sua presença. Muitas pessoas descrevem ainda um último sonho em que essa pessoa se despede, após o qual os sonhos se tornam mais raros, como se esse processo tivesse chegado ao fim.
O sentimento vivido durante o sonho é a pista mais fiável. Um sonho calmo e acolhedor costuma refletir uma ligação que está a encontrar o seu lugar na memória. Um sonho em que a pessoa parece fria, permanece em silêncio ou se afasta muitas vezes reflete assuntos por resolver: palavras que ficaram por dizer, um conflito que nunca foi esclarecido ou sentimentos de culpa relacionados com a perda. Sonhar que essa pessoa morre novamente é frequente após uma perda súbita ou traumática e pode representar a forma como a mente tenta processar algo que, na altura, não conseguiu assimilar. Nenhum destes sonhos é um julgamento sobre si ou sobre quem morreu. São simplesmente expressões do luto a fazer, lentamente, o seu trabalho durante a noite.

O Que Lhe Está a Dizer o Seu Sonho?
Explore o seu sonho através de diferentes perspetivas da psicologia — dos símbolos e arquétipos junguianos aos seus pensamentos e preocupações do dia a dia.
Perspetivas espirituais: sonhos de visita
Muitas tradições espirituais, bem como muitas pessoas sem uma filiação religiosa específica, distinguem um sonho comum com alguém que morreu daquilo a que chamam um sonho de visita. As características descritas são surpreendentemente semelhantes em diferentes culturas: o sonho é invulgarmente vívido e coerente, em vez de confuso; a pessoa aparece com bom aspeto, muitas vezes mais jovem ou completamente recuperada; diz poucas palavras, mas são claras e gentis; quem sonha sente uma paz que permanece ao longo do dia; e o sonho fica gravado na memória durante anos, ao contrário da maioria dos sonhos. Se estes sonhos correspondem ou não a visitas reais é uma questão que nenhum artigo pode resolver. O que se pode afirmar é que quem os vive quase sempre os descreve como um presente, e os profissionais que acompanham pessoas em luto aprenderam a acolhê-los dessa forma.
Quem lê estes sonhos numa perspetiva espiritual também procura perceber o que o sonho está a pedir. Quando um ente querido aparece com um pedido - fazer as pazes com um familiar, cuidar de algo que deixou para trás ou deixar de viver um luto tão intenso -, muitas tradições entendem isso como a própria relação a falar: os valores que partilharam continuam a orientar a sua vida. Quando a pessoa surge apenas para estar presente, é frequentemente visto como um sinal de conforto e tranquilidade. Em ambos os casos, a resposta recomendada é a mesma: acolha o sonho, agradeça-o e deixe que transforme a forma como vive, e não a quantidade de horas que dorme.
Sonhar com um morto no Islão
Na interpretação islâmica dos sonhos, estes sonhos têm um significado especial. Na tradição atribuída a Ibn Sirin, sonhar com uma pessoa falecida é muitas vezes entendido como uma indicação do seu estado, e a forma como ela aparece transmite a mensagem: se o ente querido surge com bom aspeto, bem vestido e sereno, isso é geralmente visto como um bom sinal sobre a sua condição. Se, pelo contrário, parece perturbado, é interpretado como um convite a rezar por ele e a fazer sadaqah em seu nome, pois os muçulmanos acreditam que ambas chegam aos mortos. Um ensinamento clássico desta tradição afirma que aquilo que os mortos dizem num sonho é verdadeiro, porque se encontram na morada da verdade. Por isso, estes sonhos são tratados com respeito e atenção, e não descartados.
Os pormenores ajudam a aprofundar a interpretação. Receber algo de uma pessoa falecida - comida, dinheiro, roupa ou um presente - é, em geral, entendido como um sinal de bem ou de sustento para quem sonha. Dar-lhes alguma coisa, ou segui-los para algum lugar, é interpretado com mais prudência e, tradicionalmente, responde-se com oração e sadaqah em vez de medo. Mantém-se também a regra habitual deste método: um sonho que apenas provoca medo pode ser um hulm, um mau sonho vindo de Shaytan, perante o qual a Sunnah recomenda procurar refúgio em Deus e deixá-lo de lado, sem procurar interpretá-lo. Muitos muçulmanos que sonham com um pai ou uma mãe falecidos fazem algo simples e belo na manhã seguinte: fazem du'a por eles.
Sonhar com um morto na Bíblia e no Cristianismo
A Bíblia traça uma linha clara contra qualquer tentativa de contactar os mortos: a Lei proíbe consultá-los (Deuteronómio 18:10-12), e a história do rei Saul e da médium de Endor (1 Samuel 28) é apresentada como um aviso. Por isso, o ensino cristão não considera um sonho com um ente querido falecido como um canal a abrir ou uma conversa a continuar. Ao mesmo tempo, as Escrituras estão repletas de compaixão perante o luto. Paulo escreve aos Tessalonicenses para que não se entristeçam como os que não têm esperança (1 Tessalonicenses 4:13-14) e, na Transfiguração, Moisés e Elias, mortos há muito tempo, aparecem ao lado de Jesus (Mateus 17:3), recordando que, na visão cristã, os mortos não desapareceram: estão com Deus.
Assim, a interpretação pastoral a que muitos cristãos chegam é esta: sonhar com um ente querido falecido não significa que ele esteja a falar do além, nem é algo que deva ser procurado ou temido. Pode ser recebido como consolo, como um gesto da bondade de Deus para um coração em luto, e como um convite à oração, ao perdão do que ficou por perdoar e à esperança na ressurreição. O critério continua a ser o mesmo: um sonho que traz paz, gratidão e amor está em sintonia com essa esperança; um sonho que alimenta o medo ou a obsessão deve ser entregue a Deus em oração e, se persistir, partilhado com um pastor.
Sonhos de luto em diferentes culturas
- Grécia Antiga: o mais antigo sonho de luto conhecido na literatura encontra-se na Ilíada, onde o espírito de Pátroclo visita Aquiles enquanto dorme para lhe pedir sepultura. Aquiles tenta abraçá-lo, mas agarra apenas o ar - uma cena em que pessoas enlutadas se revêem há quase três mil anos.
- México: o Dia dos Mortos assenta na crença de que os falecidos regressam todos os anos para visitar os vivos. Sonhar com eles nessa altura é muitas vezes acolhido como parte dessa visita.
- Tradições ancestrais da Ásia Oriental: sonhar com um familiar falecido é frequentemente entendido como um pedido de lembrança, de uma oferenda ou de resolver um assunto da família, sendo comum responder com uma visita ao túmulo ou ao altar familiar.
- Tradição clássica chinesa de interpretação dos sonhos: a tradição de Zhougong interpreta, em geral, os sonhos com mortos como auspiciosos, sobretudo quando a pessoa aparece serena e satisfeita.
Situações comuns e o que costumam significar
Em todas estas perspetivas, a forma como o sonho acontece é mais importante do que o simples facto de existir. Estas interpretações são pontos de partida, não conclusões definitivas. A relação que teve com essa pessoa é o que completa o sentido do sonho.
| Situação | Interpretação habitual | Pergunta delicada a fazer |
|---|---|---|
| A pessoa está viva e bem, como se nada tivesse acontecido | O vínculo continua; na interpretação islâmica, pode ser um bom sinal sobre o estado da pessoa falecida | Como me senti por a ter de volta e de que sinto mais saudades? |
| A pessoa fala consigo | A voz da relação que permanece em si; as tradições aconselham a dar atenção às palavras | Era isto que ela diria ou é aquilo que eu preciso de ouvir? |
| A pessoa está em silêncio, distante ou afasta-se | Assuntos por resolver: palavras por dizer, culpa ou uma rutura que nunca foi ultrapassada | O que gostaria de lhe ter dito e posso dizê-lo agora, em voz alta ou por escrito? |
| A pessoa morre novamente no sonho | A mente está a processar um choque que não conseguiu assimilar; é comum após uma perda súbita | Tive espaço para fazer o luto pela forma como aconteceu, e não apenas pelo facto de ter acontecido? |
| A pessoa dá-lhe alguma coisa | Uma herança no sentido mais profundo: um valor ou uma força; na interpretação islâmica, sustento ou um bem | Que parte dela continua em mim e estou a fazer uso disso? |
| Dá-lhe alguma coisa ou segue-a | Interpretado com prudência nas tradições clássicas; do ponto de vista psicológico, pode refletir o desejo de estar com ela | O meu luto está a afastar-me da minha própria vida e quem me pode ajudar a suportá-lo? |
| Abraça-o ou simplesmente senta-se ao seu lado | O clássico sonho reconfortante; transmite a sensação de que o vínculo permanece intacto | Posso permitir que este conforto me acompanhe hoje, em vez de o pôr em causa? |
Uma nota sincera. A maioria dos sonhos com pessoas falecidas ajuda no processo de luto, mas há situações em que o luto precisa de mais do que um sonho e um diário. Considere falar com um psicólogo especializado em luto ou com o seu médico se:
- os sonhos revivem a própria morte, noite após noite, durante meses;
- começou a sentir medo de adormecer ou evita dormir;
- os sonhos deixam-no sem conseguir funcionar normalmente no dia seguinte, durante semanas;
- dá por si a desejar juntar-se à pessoa falecida. Nesse caso, fale com alguém hoje mesmo.
O que fazer na manhã seguinte
- Deixe a emoção assentar antes de tentar interpretar o sonho. Fique mais um minuto na cama. O facto de o sonho o ter deixado em paz ou perturbado diz mais do que qualquer símbolo.
- Escreva tudo enquanto ainda se lembra bem: o aspeto da pessoa, o que disse e o que sentiu. Sonhar com um falecido desvanece-se da memória como qualquer outro sonho, e este é um daqueles que provavelmente vai querer guardar.
- Veja-o como uma expressão da vossa ligação, não como um presságio. Nem a investigação sobre o luto nem as principais tradições religiosas interpretam este tipo de sonho como uma previsão da sua morte ou da morte de outra pessoa.
- Conte o sonho a alguém que também conhecia essa pessoa. Os sonhos de luto ganham muitas vezes significado quando são partilhados, e ao contá-los torna-se mais claro o seu sentido.
- Responda ao sonho de acordo com a sua tradição: uma oração, uma esmola em nome da pessoa, uma visita ao cemitério, acender uma vela ou telefonar a um familiar de quem ela gostava. Muitas pessoas sentem que o sonho deixa de insistir depois de receber uma resposta deste género.
- Se o sonho continuar a repetir-se e a causar sofrimento, procure apoio. Os pesadelos recorrentes relacionados com uma morte podem ser tratados, e pedir ajuda também é uma forma de honrar essa pessoa.

Sonhar com alguém que já morreu é uma forma de a relação continuar, mesmo sem essa pessoa estar presente. Independentemente daquilo em que acredita sobre onde ela está, o sonho pertence-lhe e merece ser guardado e compreendido, em vez de ser ignorado. O diário da Ruya mantém-no em segurança e, quando quiser uma interpretação, pode escolher a perspetiva que mais faz sentido para si: psicológica, espiritual, islâmica ou cristã. Com algumas perguntas delicadas sobre essa pessoa e sobre a sua perda, o sonho começa a ganhar significado. O luto já é suficientemente pesado para ser carregado sozinho; o sonho não tem de o ser.


